Introdução

Capa de Introdução

Neste espaço estarei publicando um pouco de minha visão de mundo que tem impacto sobretudo, no meu trabalho fotográfico e literário. Entendo que a Fotografia, enquanto produção que pretenda ser artística, está fundamentalmente relacionada à projeção do “artista” no universo, e não o contrário. Claro que, a arte não é arte, senão pela apropriação do outro que nela se projeta, se vê e se sente, produzindo seus próprios significados com base nas memórias que ele construiu com a sua vivência ou até pela fantasia que possa habitar o seu íntimo, visto que somos todo: animais simbólicos. Até que essa apropriação aconteça, a pretensa arte não é senão um desvario, uma alegoria transitória de nossa efemeridade em busca da infinita permanência sobre a Terra.

Apesar de que as imagens falam, não me dou por satisfeito e ainda escrevo sobre elas. Em Vestígios do Tempo, a cada nova imagem advém uma mensagem poética que introduz elementos de reflexão para quem queira sobre eles refletir visto que somos seres livres e pensantes.

UM MANUAL PARA A VIDA?

Definitivamente, não existe um manual que possa nos dizer como a vida deve ser vivida na sua plenitude: somos indivíduos. Mas, é certo que existem boas referências que podem nos ajudar a caminhar com relativa sabedoria.

A vida, à medida em que se alonga, nos conduz por passagens nas quais, em cada uma delas somos diferentes, em razão de que a própria vivência e o aprendizado que advém do passar dos anos, imprime em nós as marcas que vão esculpindo a pessoa que vamos nos tornando, à partir de uma matriz que herdamos, e da qual derivam notáveis transformações do ser único que somos, mesmo tendo referencias e métricas sociais de comportamento a seguir, muitas das quais, vão contra a nossa própria condição biológica pois afinal, somos também esse “animal da floresta”, que construiu e se agrupou em ambientes artificiais de convivência.

Aprendi com os anos, que a vida tem o seu jeito peculiar de nos mostrar caminhos que vão sendo abertos e sobre os quais temos que tomar decisões, que determinam as escolhas sobre quais deles, devemos seguir. Essas escolhas vão moldando nossas vidas e nos fazendo gente melhor ou pior, dentro do arbítrio que nos foi dado para decidir e, em decidindo, arcar com as consequências boas ou más de nossas escolhas. O medo de errar não pode ser o fio condutor de nossas ações pois a estagnação é bem pior que os erros que se possam cometer e, que certamente nos fazem, de alguma forma, sofrer.

O passar do tempo é inexorável… e é curioso como a própria noção de tempo é diferente em cada diferente estágio de nossas vidas. Quando jovens, queremos “apressar” os anos e parece que a vida representa um inesgotável estoque de tempo que nunca vai acabar. Um dia a gente acorda e acha que a vida está passando rápido demais ou pior, que ja passou rápido demais. Nesses momentos, parece que a “contabilidade” passa do somar para o subtrair… como se a cada dia tivéssemos, como de fato temos, menos tempo para realizar os nossos sonhos. Nessa hora, a vida se torna, paradoxalmente urgente e somos tomados por um sentimento de perda que nunca mais vai passar, não importa quanto possamos viver a partir dessa constatação. Mas o fato é que a expressão “Carpe Diem” (1), vem mesmo bem a calhar.

A vida, como tantos já disseram, é um maravilhoso presente que recebemos ao nascer, mas, depende de cada um de nós escrever o roteiro que pode nos levar por caminhos que nos façam feliz na maior parte do tempo, na alegria de caminhar essa estrada coexistindo e interagindo com outras tantas pessoas que ao longo do tempo cruzam nossos caminhos, algumas para ficar e outras apenas para agregar o imenso arcabouço de experiências, com as quais escrevemos o nosso enredo pessoal.

Por sermos animais simbólicos, facilmente somos acometidos por todo tipo de armadilhas que fazem parte do universo social ao qual somos inseridos, de cujo tecido faremos parte, para levar a chamada vida normal. Para deixar ainda mais complexo esse estado de coisas, temos que nos submeter às regras da cultura que herdamos ou adotamos, e que temos que “aceitar”.

Bem, viver não é mesmo fácil, mas é maravilhoso. E saber que, mesmo que a imprevisibilidade nos espreite a cada instante, em boa parte dela podemos, de alguma forma, ter em mãos o leme do nosso barco. É claro que nem sempre percebemos essa condição pois vivemos sim, esse turbilhão de sentimentos que nos anuvia a razão e nos leva a reboque numa outra direção. Certo é, também, que qualquer que seja o momento, ruim ou bom, sempre vai passar… como meu pai dizia: não há bem que não se acabe e nem mal que dure 100 anos.

OK! Já que não há aqui, nenhuma pretensão de escrever um “Guia prático de vida”, resolvi criar uma espécie de “Roteiro de Viagem para a Vida”, de tal forma que possamos pensar juntos pois, no fim das contas, a decisão tem que ser de cada um. Nesse Roteiro, busquei alinhar os temas que considero fundamentais para pensar a vida em todas as suas nuances, mesmo que certamente tenha deixado inúmeros elementos importantes para trás. Apenas, considero que, não importa o estágio em que o leitor se encontre, os temas aqui abordados são um importante material para tentar ver a vida sobre a ótica do observador, que tenta se posicionar com certa neutralidade para tirar suas conclusões. Dessa postura, pode resultar um conjunto importante de elementos que permitam a cada qual, se apropriar de alguns dos conceitos e elucubrações, cuja ousadia me permitiu discorrer e compartilhar com os leitores.

Memorias

Obra: Sonhos de Jobim

Na morada do tempo
O refúgio das eras
Da vida a contento
Ou simples quimeras
Das viagens que outrora
Na aurora da estrada
Do vento que sopra
Deixando rastros …
Resgate possível da magia
Que dá sentido à nostalgia
De vencer o tempo
Arquivando vida e magia
De quanto se decanta
O mistério desse fluxo
Que nos encanta!
Na retroviagem …
Se materializa a paisagem
Construída por olhos e mente
Que às vezes nem sente…
Os vestígios de dias
Onde a mais contundente poesia
Desafia os mistérios da ousadia
Que no fundo dobra o tempo
Com voz nova que recria
Pra dizer que a vida é tardia!
Se viver “é mais tarde”
A vida arde nas memórias
Onde se arquiva quanta história
De tempo, vida ou lamento
Do que mais que sentimento
É o registro inequívoco
Do lamento da passagem às cegas
Que voltamos pra buscar…
Pois que a vida reside tão somente
Nas memórias construídas
Á revelia da consciência do presente!